O que é feminismo?

 

Conteúdos:

1. História do Movimento Feminista: Introdução

Algumas conquistas das mulheres

Declaração dos Sentimentos: uma declaração das injustiças contra as mulheres

Injustiças contra as mulheres listadas na Declaração dos Sentimentos

2. As ondas do feminismo

A primeira onda do feminismo: as sufragistas

Mary Wollstonecraft e os direitos humanos da mulher

O sufrágio feminino

A segunda onda do feminismo: feminismo radical

Movimento de libertação das mulheres

A terceira onda do feminismo: as diferenças em debate

3. O desafio da alteridade no feminismo

4. Afinal, o que é feminismo?

 

Você sabia que no Brasil mais ou menos 500 mil mulheres são estupradas por ano e apenas 10% dos casos são denunciados? Além disso, uma mulher é morta a cada 2 horas no país, ou seja, 12 mulheres são assassinadas por dia no Brasil!

E por que é importante saber disso?

A ideia deste post é mostrar através da história e das conquistas do movimento feminista, a importância do feminismo. E pelas perguntas que eu fiz acima, você já sabe que uma das razões para ser feminista é que nossos direitos e nossa integridade continuam sendo violados.

E eu não falo apenas de abusos e violência física. Como exemplo, quando você tem um salário menor que o de um homem para a mesma função, isso também é uma forma de violência e discriminação.

Por isso, vou mostrar aqui que, sim, é importante e imprescindível que todas nós mulheres sejamos feministas. Não porque é uma fase ou para fazer parte do grupo. É preciso ter consciência de que existe ainda uma misoginia muito forte. E uma insistência da sociedade em permanecer dos homens e para os homens.

1- História do Movimento Feminista: Introdução

Para entender o que é o feminismo, é preciso conhecer a história do feminismo. Por isso, vou mostrar agora como se desenvolveu a noção de feminismo, desde o começo do movimento feminista, época em que nem existia o termo feminismo.

É preciso conhecer a história do movimento para entendermos que o feminismo não se manifestou somente de uma maneira. Quero dizer que o feminismo é na verdade “os feminismos”. E ao mesmo tempo é uma unidade que se preocupa em defender os direitos das mulheres em todas as áreas da vida delas. Por outro lado, também ocorrem confusões a respeito do feminismo. E muitas vezes vemos mulheres que não se identificam com o feminismo e até mesmo se posicionam contra o feminismo.

Com a apropriação da história do feminismo você pode analisar, discutir, dialogar e comparar com as manifestações atuais do feminismo. Além disso, é importante a memória. Exatamente para não nos esquecermos da luta e daquelas que lutaram. Porque, infelizmente, as reivindicações feministas não estão garantidas.

O esquecimento sempre espreita. Não é permitido esquecer aquele silêncio eterno. Aquele silêncio que esconde as injustiças. O silêncio que pretende o esquecimento e, por fim, silenciar a cada uma das mulheres. Por isso é necessário ser feminista. É necessário não deixar o feminismo morrer. É necessário história, memória, reflexão e ação.

Algumas conquistas das mulheres:

  • 1759- Olympe de Gouges publica a Declaração dos direitos da mulher;
  • 1792- Publicação de Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, considerado um dos primeiros livros de filosofia feminista;
  • 1827- Brasileiras tem autorização para estudar no ensino elementar;
  • 1848- Convenção em Seneca Falls (EUA) pelos direitos das mulheres – Declaração dos Sentimentos;
  • 1857- Em 8 de março em New York, 129 operárias morrem queimadas pela força policial, numa fábrica têxtil. Elas reivindicavam a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade. Desde 1920 dedicamos o 8 de março para homenagear essas corajosas operárias;
  • 1869- O estado de Wyoming (EUA) foi o primeiro a conceder o direito de voto às mulheres;
  • 1870- Na Inglaterra, direito das mulheres frequentarem cursos universitários e das mulheres casadas poderem administrar suas propriedades e controlar seus ganhos;
  • 1871- Em Cambridge, Inglaterra, é fundado o Newnham College por Henry Sidgwick e co-fundado por Millicent Garrett Fawcett (União Nacional pelo Sufrágio Feminino);
  • 1879- Enfim, brasileiras tem direito de cursar ensino superior; apenas em 1887 primeira brasileira (e segunda mulher na América Latina) recebe diploma de ensino superior. Foi Rita Lobato Velho Lopes (medicina);
  • 1893- Nova Zelândia foi o 1° país a garantir o voto das mulheres;
  • 1906- Finlândia é o primeiro país europeu a garantir o voto das mulheres;
  • 1918 – Sufrágio feminino na Inglaterra;
  • 1920- É aprovada a XIX emenda à Constituição dos Estados Unidos estabelecendo que todas as mulheres maiores de idade têm direito de voto;
  • 1928- Ray Strachey publica “The Cause”: A short history of the Women’s movement  in Great Britain (“A Causa”: Um breve história do movimento das mulheres na Grã-Bretanha);
  • 1932 – No Brasil, o governo de Getúlio Vargas promulga o novo Código Eleitoral pelo Decreto n.º 21.076, de 24 de fevereiro, garantindo finalmente o direito de voto às mulheres brasileiras. Mas, apenas para mulheres casadas autorizadas pelo marido, viúvas e solteiras com renda própria. Essas restrições são retiradas em 1934;
  • 1949 – A escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) publica o livro “O Segundo Sexo”.
  • 1963- Betty Friedan publica A mística Feminina;
  • 1968- Em 7 de setembro, ocorre o protesto bra-burning (queima de sutiãs) em Atlantic City (EUA).
  • 2006- Lei Maria da Penha no Brasil. A ONU considera uma das 3 leis no mundo que melhor combate a violência contra as mulheres.
  • 2015- No Brasil, sancionada a Lei do feminicídio.
  • 2015- Em novembro de 2015, ocorre a Primavera das Mulheres. Manifestação contra a opressão e violência sofridas pelas mulheres.
  • 2017- Movimento #metoo alcança o mundo com as denúncias publicadas pelo The New York Times contra o produtor Harvey Weinstein. A atriz Alyssa Milano publica em seu Twitter o termo #metoo desencadeando uma onda de denúncias em Hollywood e no mundo. Mas, esse termo foi cunhado pela ativista Tarana Burke em 1996.

Declaração dos Sentimentos: uma declaração das injustiças contra as mulheres

Um episódio interessante da história do feminismo foi a Declaração dos Sentimentos que ocorreu em 1848 nos EUA, na Convenção de Seneca Falls. Foi assinado por 68 mulheres e 32 homens. Ao todo, portanto, foram 100 pessoas que assinaram, sendo que em torno de 300 pessoas compareceram a Convenção de Seneca Falls.

Elizabeth Cady Staton foi a responsável pela Declaração, tendo como modelo a Declaração da Independência dos EUA. Ela também foi uma das organizadoras da Convenção.

A Declaração afirma que metade da população (mulheres) do país era privada de seus direitos porque as leis eram injustas. Fala também que a privação de seus direitos causa prejuízos e opressão das mulheres. E requerem que os direitos sejam reconhecidos, porque as mulheres são cidadãs dos Estados Unidos.

Além disso, eles anunciam que vão utilizar todos os meios disponíveis para informar a população e alcançar o objetivo de garantir tais direitos.

Seafood Grill

Injustiças contra as mulheres listadas na Declaração dos Sentimentos:

  • Impedir o direito de votar;
  • Impedir o direito à propriedade e aos salários que elas recebiam;
  • Impedir acesso a empregos mais bem pagos e às organizações de ensino superior para a conclusão da educação;
  • Impedir o direito de domínio sobre si próprias e sobre sua liberdade.

É interessante que foram necessários 72 anos desde a Declaração dos Sentimentos para que o voto feminino fosse conquistado em todo o território estadunidense.

Também, as mulheres consideraram que os homens estavam cometendo injustiça, impondo sobre elas:

  •  Prometer obediência fiel aos seus maridos;
  •  Seguir um código moral diferente;
  •  Obediência a leis criadas sem sua participação;
  •  O pagamento de impostos a um governo desinteressado.

Declaration of Sentiments

 

2- As ondas do feminismo

British WILPF members, 1932

A primeira onda do feminismo: as sufragistas

Quando falamos de história do feminismo, a visão do feminismo tem sido ampla. Mas existe um entendimento comum de que o feminismo se trata de um movimento social que tem como objetivo mudar a posição das mulheres na sociedade.

Contudo, é preciso retornar um pouco na história e analisar a própria história do feminismo, que é escrita como a história do movimento feminista. Dessa maneira, a primeira onda do feminismo ocorreu entre o século XIX e início do século XX. A preocupação principal desse período foi o direito de votar das mulheres.

Em 1928, Ray Strachey publica um importante livro sobre a história feminista: The Cause”: A short history of the Women’s movement  in Great Britain. Apesar de ser um texto que possui muitas convenções da história feminista, ele é importante porque quando Strachey escreveu esse livro não existia o termo feminismo. O que existia era o movimento social para mudar a posição das mulheres na sociedade. O termo feminismo surge no desenvolvimento do movimento.

No surgimento da noção de feminismo, a prática do feminismo ou o movimento em si (as manifestações, etc) é considerada como diferente do feminismo. Strachey considera que o movimento surge porque as mulheres se revoltam contra a exclusão política, social e econômica que sofrem, dentre outras razões. A função da mulher era basicamente casar, ter filhos, cuidar da casa.

Contudo, na visão de Strachey isso não significava ser feminista, porque ser feminista implicava a mulher ter como foco total a defesa dos direitos das mulheres. Para Strachey as feministas eram as líderes do movimento, as organizadoras. Ou seja, as mulheres que estavam envolvidas diretamente e intensamente no movimento. As feministas, nesse sentido, seriam “o espírito animador” do feminismo.

Apesar de criticar posições diferentes, uma unidade é assumida. Claro, desde então muito mudou na percepção histórica do feminismo. É importante notar que existe o movimento feminista enquanto prática/manifestações; e o feminismo teórico. Na minha percepção são manifestações do feminismo que andam lado a lado. E também a história intelectual tem importância.

Mary Wollstonecraft e os direitos humanos da mulher

Também podemos perceber que o feminismo tem uma alta capacidade de se combinar com outras formas de pensamento político. Um exemplo que não está inserido no período da primeira onda do feminismo é a obra de 1752 de Mary Wollstonecraft: Reivindicação dos direitos da mulher.

Para Strachey, essa obra é “O livro” do movimento feminista. Nessa obra a autora aborda o tema dos direitos da mulher trazendo elementos do iluminismo e da Revolução Francesa. Ela pega ideias como o desenvolvimento livre do indivíduo e aplica às mulheres, refletindo a respeito dos direitos hereditários e dos deveres e exclusões que derivam da diferença sexual.

Partindo dessa crítica social, Mary Wollstonecraft chega aos direitos humanos da mulher. Se as mulheres são seres humanos, e todo ser humano é dotado de razão, logo as mulheres são dotadas de razão. Portanto, elas têm o direito de desenvolver suas capacidades racionais.

Em outras palavras, Wollstonecraft defende que como integrantes da espécie humana as mulheres devem ter a mesma consideração que os homens. Isso tendo em vista o próprio desenvolvimento da espécie. Claro, isso é o argumento do direito natural e não deixa de ser, de fato, “um apelo por direito humanos iguais”.

Contudo, tal ideia não é compartilhada pelas feministas do século XIX. A noção de direitos humanos é substituída pelos debates políticos da Revolução Francesa e, adiante, pelo socialismo.

Podemos citar, dentre outras, Helen Taylor – escritora, atriz e sufragista inglesa. Ela propôs que a defesa do voto da mulher tivesse seu fundamento não no direito natural, mas no direito de propriedade. Em outras palavras, o voto das mulheres seria uma questão legal.

A diferença entre o direito à propriedade e os direitos das pessoas foi um debate central no século XIX. Mas Wollstonecraft era mais radical e não houve um diálogo entre ela e os defensores do direito a propriedade.

Strachey defende em sua obra que as feministas tinham um ideal em comum. Mas na realidade, apesar da primeira onda do feminismo ser caracterizada pelo sufrágio das mulheres, no século XIX havia muitos outros objetivos diferentes.

O sufrágio feminino

Mesmo assim, existia esse ideal de produzir igualdade entre mulheres e homens. Portanto, entre o final do século XIX e o início do XX, o ideal expresso por Wollstonecraft de direito humanos igualitários perde força.

O movimento feminista não possuía um único foco, e então na virada para o século XIX o foco se concentra no voto da mulher. O sufrágio tornou-se assim o coração do feminismo, o que não significa que o voto tenha sido o objeto do feminismo desde sempre. Podemos traçar uma linha desde a tomada de consciências das mulheres de seus direitos humanos que vai culminar na luta por poder representar a si mesma nas eleições e fazer escolhas na sociedade.

Também por isso o livro de Ray Strachey é interessante, porque o ápice da obra é o sufrágio. Talvez o foco tenha saído da consciência dos direitos humanos das mulheres porque era preciso garantir através do voto os direitos. Um dos passos para conseguir isso é ter o poder de voto e poder escolher quem vai representar e defender seus direitos.

Também podemos pensar aqui que, afinal, o feminismo se desenvolve e vai assumindo demandas urgentes para cada período. O voto foi um deles. Hoje, a violência e abuso contra as mulheres é uma questão urgente. Mas, nada nasce pronto: há um desenvolvimento que requer reflexão e tomada de consciência individual e dos movimentos.

Nos anos 1850 as feministas perceberam que, sim, era preciso ter mais representatividade. No debate interno entre as feministas e também com os não-feministas a ideia de direitos humanos é substituída pelo direito da mulher. A mulher agora é concebida como membro de um grupo social, o das mulheres.

O que as sufragistas e as feministas sempre tiveram em comum foi o desejo de construir uma unidade com o intuito de construir sua própria representatividade.

No decorrer da campanha foi se tornando mais forte a resistência a ela. De certa maneira, essa pressão contrária ocasiona a percepção da necessidade de representatividade, porque sem isso conquistas não ocorrem, e o movimento mesmo poderia desaparecer ou perder a força.

Como nesse período ainda as mulheres casadas eram representadas pelos maridos, isso foi uma dificuldade que resultou – em nome do igualitarismo – na paradoxal decisão de excluir esse nicho do movimento, ao menos por um tempo. O interessante foi que a exclusão interna tinha o propósito de “ressaltar a unidade entre as mulheres”.

Claro, o movimento era político e buscava representação naquele momento para as mulheres. No desenvolvimento se deparou com a necessidade de responder questionamentos que tinham a ver com a legislação e práticas de seu tempo. Fazer escolhas foi necessário para alcançar objetivos ainda que incoerências como a que eu citei acima tenham ocorrido. Para os herdeiros, resta combater o que ainda não foi restaurado.

Portanto, mesmo que pareça cruel ou injusto, para mover-se é preciso trabalhar com o que temos. Se a sociedade ergue um muro em torno dos nossos direitos que parece intransponível, ás vezes você não vai conseguir derrubar o muro inteiro: escave um buraco, entre e derrube o muro de dentro, com as próprias armas deles.

E, por isso, é preciso união não somente interna, mas conquistar outros apoios. Vamos lembrar: o feminismo é também um movimento político, porque fazemos parte da sociedade e direitos e deveres envolvem esse pertencimento.

A segunda onda do feminismo: feminismo radical

“O pessoal é político.”

Pro abortion demonstration 1981

Haja vista que o movimento feminista teve “momentos de descontinuidade e rupturas” tanto no discurso quanto na prática, é interessante destacar que em dois momentos da história feminista houve mudanças determinantes:

  • Século XIX- noção de unidade das mulheres agindo juntas. Há uma narrativa mais positiva do movimento, ressaltando os sucessos. Sublinham os triunfos e as dificuldades são deixadas de lado;
  • Século XX- após mais ou menos 50 anos do período referido acima, desenvolveu-se um novo movimento, que questionava os sucessos, gerando assim um anticlímax, apesar do contexto da narrativa ser mantida.

O exagerado destaque dos sucessos do feminismo (e quase ocultação das dificuldades) se origina do foco no feminismo como atividade. Quer dizer, mesmo que se pense que no século XIX havia um silêncio das mulheres no debate público, devemos lembrar que houve uma profícua produção teórica e do pensamento político.

Logo, a questão é valorizar tanto a história da atividade, quanto o desenvolvimento do pensamento feminista.

Movimento de libertação das mulheres

A segunda onda do feminismo foi de 1960 até os anos 1980, e estava focada nas questões de igualdade e discriminação. Nesse período o feminismo já defendia uma política direcionada às mulheres. Uma das conquistas do movimento sufragista foi conseguir modificar a questão de ser mulher enquanto sexo para a mulher como movimento social. Assim, emerge nesse contexto o Movimento de libertação das mulheres, em inglês women’s liberation movement (WLM), nos 1960.

Quando o Movimento de libertação começa nos anos 1960, tem destaque 3 conceitos de feminismo encontrados nos discursos do movimento.

  • Mulheres como um grupo social administrado pela unidade;
  • A percepção do sujeito feminino distinto do sujeito masculino;
  • Uma política focada nas mulheres.

O Movimento de libertação procurava uma nova linguagem. Pretendia uma linguagem de libertação ao invés de emancipação, e uma linguagem de coletividade ao invés de individualismo.

As análises das posições da mulher são feitas tendo como pano de fundo o marxismo e a sociologia. Nas práticas, as mulheres procuravam incentivar mais participação e não somente representação. Surge também o conceito de “política sexual”. Essa nova ideia debate a dominação masculina como grupo social das mulheres e tenta desvincular a questão da sexualidade das mulheres da reprodução.

Esse conceito é o mais distintivo do feminismo que surge nessa época – e entendo que ainda hoje é um debate forte, tendo em vista que ainda é uma crise o que as mulheres fazem do próprio corpo, até o limite de existir a proibição de abortar em muitos países (como no Brasil). É preciso lembrar que apenas permitir o aborto não é suficiente, é preciso garantir o bom atendimento médico e assistência psicológica também, etc.

A autonomia do sujeito feminino vai se tornando cada vez mais central para o feminismo. Quando chegam os anos 1980, o feminismo era considerado criado por mulheres, para mulheres, pelas mulheres, tendo como objeto as mulheres, “como um gênero-específico”. As mulheres são os sujeitos, objetos e autoras de todo o feminismo.

Em contrapartida, tensões internas se intensificam apesar de uma unidade entre as mulheres ser assumida.

Uma das tensões que surgiu foi gerada por uma crise da noção de”mulher”, tendo como resultado de muitas pesquisas que essa noção é muito diversa, ainda mais se consideramos a diversidade cultural tanto no presente, quanto no decorrer das épocas.

O que é um resultado positivo, porque mudar é normal e é necessário. Nós não podemos querer que um movimento seja estático. Revisões são necessárias e inevitáveis, porque nenhum movimento é uma mônada.

Então, a ideia de mulher muda e também o feminismo muda. Pense nas pessoas que se identificam como mulher (mesmo que tenham nascido do sexo masculino). Ele é homem por que tem o sexo masculino? Não, ela é mulher, na mente, no coração e na alma dela! Principalmente a questão é focada na distinção entre sexo e gênero. Desse período que herdamos essa distinção.

Vale destacar que o foco deste período se torna “construir uma teoria-base sobre a opressão feminina”, analisando as estruturas por trás da opressão. Também, é um período lembrado pelo radicalismo dos movimentos das décadas de 1960-1970, sendo reconhecido como feminismo radical.

Nesse período também a teoria se volta para procurar as raízes (estruturas) da discriminação e opressão das mulheres como fenômeno de nível mundial. Como resposta, elas percebem que o sexo (biológico) e a reprodução serviram de “justificativa” para determinar a função da mulher na sociedade, estritamente relacionada com seu sexo e sistema reprodutor. É o que ainda hoje ouvimos de a mulher ser a mãe, que cuida dos filhos e da casa. Esse foi o papel das mulheres, imposto no decurso da história pela sociedade predominantemente patriarcal. Resumindo, o mundo das mulheres foi restrito a reproduzir e cuidar da prole e o restante das funções sociais, econômicas e políticas era uma função dos homens provedores.

Também nesse período se intensificam críticas e análises da exploração da mulher, da violência e das diferenças que existem entre as mulheres. Apesar de ainda serem as mulheres brancas as militantes predominantes, emergem representações de mulheres lésbicas, negras, da classe trabalhadora abordando também dessas diferenças dentro do feminismo.

A terceira onda do feminismo: as diferenças em debate

Rosie the Riveter

Já existia uma história teórica do feminismo, mas com a abertura do diálogo e reflexão a respeito das diferenças e opressões se fortalece o que pode ser chamado de “feminismo identitário” a partir dos anos 1990 até hoje – mas há debates que já falam de uma quarta onda feminista. O feminismo de terceira onda tem mais de característico o debate intensificado das diferenças e a disseminação desse debate no mundo inteiro, ainda mais considerando o surgimento da internet. Como exemplos recentes, o movimento #metoo e o caso do assassinato da Marielle Franco. Através da internet não é possível esconder nada e muito menos conter o movimento. Veja mais sobre a terceira onda do feminismo.

As reivindicações e protestos são semelhantes as do feminismo de segunda onda. Entretanto, essas feministas tratam das diferentes identidades e experiências das mulheres mais intensamente e em larga escala. Surgindo assim o termo interseccional. Ou seja, é intensificada a percepção de que não existe uma massa homogênea chamada de mulheres, porque somos uma heterogeneidade com diferentes reivindicações que se relacionam com a opressão às mulheres. A pluralidade das mulheres entra em jogo. Você pode conferir um material muito bacana sobre as três ondas do feminismo aqui.

3- O desafio da alteridade no feminismo

Ainda que o movimento feminista dos anos 1970 se mostrasse muito unido, na realidade foi um período de disputas internas difíceis. O que é ser feminista e como uma feminista deveria agir eram alguns dos motivos dessas disputas. Eu destaco isso porque no instante que surge o desejo de padronizar (o que é um desejo de dominação) entramos novamente naquilo que estávamos combatendo: a discriminação.

Pensa comigo: discriminar é simplesmente não aceitar as diferenças defendendo uma homogeneidade que é simplesmente irreal. Se o feminismo está defendendo o direito de ser mulher e de ter respeito integralmente, a ideia de respeito implica as diferenças que existem nessa noção de mulher.

Então, como surgem muitas manifestações de feminismo, faz mais sentido falar de uma “pluralidade de feminismos”.

É um dever, enquanto feminista, encontrar maneiras de dialogar internamente com as diferentes manifestações de feminismo que existem. Novamente, as diferenças não podem se tornar motivos para julgamento e demonstração de poder.

De onde surge a fragmentação interna do movimento feminista? No texto O que é feminismo? de Rosalind Delmar, ela procura responder a isso. Para ela, a origem está lá no começo do movimento feminista na Grã-Bretanha.

O movimento assumiu que conseguiria abranger todas as diferenças e defender todas as mulheres. Baseou-se na percepção de que todas as mulheres sofrem opressão, violência, discriminação. Mas, assumindo que a experiência de cada uma delas perante esses atos era igual. O sentimento geral das mulheres seria que eram impossibilitadas de desenvolver plenamente seu potencial.

Assim, o movimento das mulheres se esforçou para “criar uma solidariedade entre as mulheres”. Conseguiu atingir uma identificação e simpatia com movimento, porém não conseguiu alcançar unidade política entre as mulheres.

Por que é importante falar disso?

Pois, as diferenças internas que existem podem causar divisões políticas no movimento feminista. De maneira que pode estagnar uma defesa politicamente determinante dos direitos das mulheres. Assim, simplesmente assumir que há uma unidade baseada na identidade não é o suficiente para ter força política. Ou seja, é nas diferenças que podemos encontrar a força, mas é preciso acolher e trabalhar com as diferenças.

Por que é uma dificuldade as diferenças internas que emergem? De maneira resumida, sabemos que é complexo lidar com aquilo que consideramos diferente de nós, pois existe a noção muito firme de identidade (que é necessária). É mais complexo ainda quando está num nível de grupo. E o que não é minha identidade agride meu eu ou o grupo.

Trata-se de reconhecer a alteridade. O que é um desafio constante. Abaixo indico um artigo da Geledés muito interessante a respeito da alteridade, explicando por que é tão difícil aceitar o outro, mas que podemos aprender e praticar. Confira a página  Geledés..

Eu considero brilhante a maneira que Mendel de Kotzk explica a questão da identidade e alteridade, o que possibilita a própria existência de diálogo:

ser eu e ser você

Da maneira que ele fala afasta a ideia de que o que define eu é que há você. Na verdade a diferença essencial é ser eu e ser você. É uma dádiva, mas ao mesmo tempo nosso maior desafio como seres humanos. No fundo, a realidade é que se há você e eu, essa diferença é a abertura para o diálogo.

Reconhecer a alteridade é acolher a alteridade. Isso não é algo que nascemos sabendo, mas que aprendemos e exercitamos. Por mais que o ser humano tenha a inclinação para o convívio em sociedade, é preciso assumir que temos responsabilidade pela alteridade. É uma responsabilidade que não está garantida, porque constantemente existem tensões nas relações humanas.

Por isso, é preciso vigiar e estar atento para que os objetivos não sejam perdidos de vista. Diariamente, e não é fácil, devemos ser vigilantes. O objetivo aqui é garantir os direitos das mulheres e alcançar equidade verdadeira. E isso se aplica a todos os contextos da nossa vida.

4- Afinal, o que é feminismo?

“O feminismo é a noção radical de que mulheres são pessoas.”

Marie Shear

Se você que está lendo este post é mulher, já deve ter passado por alguma situação embaraçosa, e até mesmo de violência física ou psicológica. Alguém olhar para seu corpo na rua e muitas vezes falar “coisas” que não queremos ouvir; tentativas de aproximação forçada em festas e outros lugares; toques indesejados; o terror e tensão constante de relacionamentos abusivos; o risco de sair para se divertir e ser abusada de alguma forma.

Além da violência, há a discriminação no mercado de trabalho. Ainda mulheres são preteridas em entrevistas de emprego tendo o mesmo nível ou mais experiência que homens. Apenas 25,85% de presidentes de empresas no Brasil são mulheres. Mas o número mais perturbador é que elas recebem em média 32% a menos que CEOs homens. No geral, chega a 53% a diferença entre os salários de homens e mulheres, ocorrendo em qualquer nível e área de atuação.

O feminismo é a consciência de que há discriminação contra as mulheres e de que seus direitos não estão garantidos. E, por isso, defende-se que mudanças radicais ocorram nos âmbitos econômico, social e político. Essa é uma definição geral. Mas o movimento feminista possui diferentes manifestações de feminismo desde o começo de sua história.

O que é feminismo

Essencialmente, o feminismo é a união das mulheres (e dos simpatizantes e também daqueles que se identificam como mulheres) pela defesa dos seus direitos e por reconhecimento enquanto mulheres. É importante ressaltar isso para que as diferenças não implodam o feminismo por atritos internos, que nos distanciam e tiram o foco do que realmente é importante: a mulher integralmente.

Nós devemos defender o direito de ser quem você quiser. Sim, é acolher e representar todas as mulheres nas suas idiossincrasias. Isso também é sororidade. Por outro lado, é preciso sim uma mudança de atitude, de comportamento e de consciência de muitas mulheres – e obviamente dos homens. A questão não é e não pode ser: “se você não pensa como eu, você não é feminista” e excluir essa mulher. Não. É preciso acolher e ser uma unidade. Não uma desculpa para julgamentos.

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Publicado por aguedamars

Blogger (e filósofa nas horas vagas). Apaixonada por desenvolvimento pessoal e espiritualidade.

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